O aroma é de stracciatella, os pés sentem o Adriático, e o ouvido as batidas de blues de um club ali ao lado. Todos conversam entusiasticamente, vivem. Apaixono-me só por estar a olhar, a ver-vos e não sei quem são, nunca vos vi, absorvo as vossas emoções e, de uma forma egoísta e ficcionada, faço delas minhas para que depois possa dar forma a estórias que não são minhas, a momentos que roubei algures entre um raio quente de sol e uma onda gelada no pé esquerdo. Dão-me as vogais, as consoantes, todos os pontos de exclamação, interrogação e as pausas necessárias para a composição dos mais improváveis textos e continuo sem conseguir. A relação entre o que está gravado a carvão e o que ocupa a cabeça é a mais injusta e distante de sempre, a mão teima em não conseguir igualar a velocidade com que as palavras se formam no cérebro vindas da audição, do paladar e da visão, apuro um pouco mais os sentidos e na cabeça consigo verdadeiras estórias de encantar. Nas páginas há espaços em branco, há palavras indecifráveis, porque a caligrafia não o permite, não consigo passar estas estórias, desenhá-las com a mais bonita caligrafia para que alguém um dia as possa ler, resta-me usar a memória - enquanto existir - e a minha voz para que as possa transmitir aos outros, para que consiga partilhar os momentos que roubei todas estas tardes em que vos dizia estar sozinha e feliz.
Aubergine*
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